Celebração do aniversário do antigo Mosteiro das Chagas exalta relevância histórica
26-Nov-2018



No dia em que completou o 430º aniversário da fundação do Mosteiro das Chagas, a Santa Casa da Misericórdia de Lamego promoveu, pela primeira vez na sua história, a realização de um programa cultural, diferenciador e de excelência, que celebrou a criação de um dos mais importantes conventos existentes em Portugal, no seu tempo, e do qual resta atualmente apenas a Igreja das Chagas e o espólio que até hoje se mantém à guarda do Museu de Lamego e que ali chegou pela mão do seu primeiro diretor.
O momento alto do evento que a maior e mais antiga instituição de solidariedade social do concelho de Lamego preparou foi reservado para a noite do último domingo com a atuação do grupo vocal “Ançãble”, dedicado sobretudo à Musica Sacra Portuguesa. A chuva e o frio intenso sentido àquela hora não esmoreceu a vontade do público em associar-se a esta comemoração tão especial e assistir ao regresso da Igreja das Chagas como palco de grandes concertos de música erudita. Mais uma vez, este templo religioso revelou-se pequeno para acolher todos aqueles que quiseram ouvir interpretações de obras do ancestral canto gregoriano e polifonia portuguesa. Na segunda parte, esta atuação musical contou ainda com a participação especial do Coro desta Santa Casa, que assinalou recentemente o segundo aniversário da sua constituição.
A atuação sublime e irrepreensível do grupo “Ançãble” foi antecedida por uma comunicação sobre as memórias – materiais e espirituais – do antigo Mosteiro, proferida por Alexandra Falcão, Diretora do Museu de Lamego, que recordou “a perseverança e a obstinação” do primeiro diretor desta instituição, João Amaral, em enriquecer o acervo deste espaço museológico através da doação do espólio do Mosteiro, constituído por capelas e respetivos recheios de escultura.
O programa de comemorações começou, no entanto, bem cedo, no domingo, com a celebração de uma missa, presidida por D. António Couto, Bispo da Diocese de Lamego, e a realização, muito participada, de uma visita-orientada no Museu de Lamego, bem como uma exposição de fotografia antiga sobre as igrejas desta Misericórdia, iniciativa feita em colaboração com a Associação “Arquivo da Imagem”.
“A celebração dos 430 anos do Mosteiro das Chagas foi, sem dúvida, uma excelente oportunidade para todos os que estiveram presentes, nos vários eventos da comemoração, ficarem a conhecer muito melhor a sua importância passada e presente. Passada, porque se prova que foi realmente muito importante para a cidade de Lamego, para a região Norte e mesmo para o País. No presente, porque o seu espólio é hoje uma peça central do Museu de Lamego, sem o qual certamente não teria a relevância, que tem hoje, no contexto museológico nacional. O concerto de canto gregoriano foi, sem dúvida, uma extraordinária oportunidade de enriquecimento cultural e uma possibilidade de reviver a atmosfera espiritual destes mosteiros”, realça o Provedor António Marques Luís.

Grande prestígio e grandes privilégios
Recorde-se que o Mosteiro das Chagas, foi fundado por ordem de D. António Teles de Menezes, Bispo de Lamego, no antigo Campo do Tablado, e iniciado com um grupo de clarissas, todas irmãs do Bispo, provenientes do Convento de Monchique, da cidade do Porto. Desde o início do século XVI, as famílias nobres da cidade exigiam a fundação de um convento no perímetro urbano para albergar as suas filhas. No entanto, apenas em 1588 se instituiu aqui a primeira casa religiosa feminina, obediente à Ordem de Santa Clara, que perdurou durante mais de 300 anos e que haveria de encerrar as suas portas em 1906. Gozou de grande prestígio e de grandes privilégios e as religiosas destacaram-se pela sua veia artística. O Mosteiro foi depois demolido para ser construído o Liceu Latino Coelho.