Lidar com jovens problemáticos exige um equilíbrio entre firmeza e empatia. É preciso estabelecer limites claros e, ao mesmo tempo, manter uma janela aberta ao diálogo para ouvir sem julgar e mostrar empatia pelas emoções.
A missão de Ana Rafaela Pereira é cumprir este guião à risca. Num mundo cada vez mais polarizado e menos tolerante, em que as redes sociais tendem a isolar os jovens, o seu trabalho é cada vez mais difícil.
Ana está à frente da Casa de Acolhimento (CA) da Misericórdia de Lamego, como diretora técnica, uma resposta social que acolhe jovens do sexo feminino, dos 6 aos 25 anos, retiradas do seio familiar por decisão judicial ou da Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ). Uma retirada de urgência que se deve, sobretudo, a casos de negligência parental ou à exposição a comportamentos de risco.
Quando chegam aqui, as jovens estão “emocionalmente instáveis”, muitas vezes com padrões de comportamento complexos, como consumo de estupefacientes e absentismo escolar. “O primeiro impacto é complicado, agravado pelo facto de sabermos muito pouco sobre elas. Tentamos ser figuras de referência para estabelecer regras e limites. Não podemos ser amigas ou companheiras”, relata Rafaela, acrescentando que as dificuldades são cada vez maiores para estabelecer um vinculo seguro, devido ao aumento de comportamentos relacionados com patologias psicológicas e psiquiátricas “de alguma gravidade”. Há jovens que acabam por permanecer institucionalizadas durante anos e outras que, ao atingirem a maioridade, optam por sair na busca pela independência.
Psicóloga de formação e 33 anos de idade, a vida profissional de Rafaela esteve sempre ligada à Santa Casa da Misericórdia de Lamego. Antes de ingressar na equipa técnica da CA trabalhou no Lar de Idosos e no Centro de Acolhimento Temporário (CAT), um passado que lhe dá uma visão geral sobre a vida da instituição. Confessa que um dos maiores receios que sentiu quando ingressou, pela primeira vez, na Casa de Acolhimento foi o medo de não conseguir impor autoridade, “mas depois arranjei as estratégias certas”.
Lidar com comportamentos problemáticos na adolescência é um processo contínuo que requer paciência, comprometimento e resiliência. Atributos pessoais que tornam Rafaela um exemplo positivo e que ajudam a dar forma a casos de sucesso de jovens que estabilizam a sua vida e conseguem corresponder às expectativas de si próprios. “São estas jovens que nos dão alento para continuar, mas não sei se é possível desempenhar estas funções por muitos anos. É extremamente desgastante e um trabalho permanente que exige muito de nós”.